segunda-feira, junho 11, 2018

OGMA com portas abertas a 30 Jun 2018


Obtive hoje a confirmação que está para muito breve a divulgação do programa do Centenário das OGMA e do regulamento das inscrições de ex-funcionários, para o dia de portas abertas (30 junho 2018). Farei a sua divulgação neste blogue, no Facebook e por e-mail para a lista de distribuição do encontro anual de ex-Avionicos.

domingo, março 18, 2018

O Centenário da OGMA - artigo de opinião


Artigo de opinião publicado no Jornal "O Diabo" de 6/03/18, sobre o centenário das OGMA, da autoria do Coronel Engª Eduardo Brito Coelho. (clicar na imagem)

sábado, março 17, 2018

Como nasceu o Parque de Material Aeronáutico

Com a reorganização do Serviço Aeronáutico, através do Decreto nº 4526, de 29 de Julho de 1918, além de outras inovações, criava-se o Parque de Material Aeronáutico (PMA) em Alverca. Pelo artigo 10º do referido decreto, o Parque era destinado a:
1 - Guardar, conservar, reparar, construir e fornecer material aeronáutico.
2 - Ministrar instrução aos artífices especialistas.
Quer dizer, o Parque, além da sua função oficinal especifica e de depósito de material, funcionaria como escola de mecânicos. O mesmo diploma legal, estabelecia no quadro de pessoal permanente o seguinte: um director, dois adjuntos oficiais de engenharia, um oficial do quadro auxiliar do serviço de engenharia, um tesoureiro de administração militar, um sargento-ajudante, três sargentos e um praça de pré, todos de engenharia: e o pessoal menor auxiliar e fabril em número a fixar oportunamente.


As salinas de Alverca - 1918

Terrenos de cultura de Alverca - 1918
Em face disso, começou a activar-se imediatamente a estruturação do Parque, ainda em Vila Nova da Rainha, onde funcionava a Escola de Aeronáutica Militar inaugurada em 1916. No dia 26 de Agosto de 1918, é aberto o livro de ordens, escrito à mão, à maneira antiga, sem cópia, e que por isso mesmo tem hoje um alto valor histórico. Pela Ordem de Serviço nº1, assumia o cargo de director, o capitão de engenharia, com o curso de engenheiro aeronáutico, Pedro Fava Ribeiro de Almeida.

Coronel Pedro Fava Ribeiro de Almeida
Eram nomeados adjuntos, o tenente de engenharia João de Almeida Meleças, que na Escola Militar da Aeronáutica desempenhara iguais funções de adjunto e chegara a frequentar o curso histórico de pilotagem de 1916-1917, o primeiro efectuado em Portugal, e o tenente do quadro auxiliar dos serviços de engenharia Ernesto Videira.Completavam o reduzido quadro de oficiais: o tesoureiro, alferes de administração militar José de Almeida Meleças e o alferes miliciano de engenharia D. Marcos da Silva Noronha.

Capitão João de Almeida Meleças
Como médico, era contratado o tenente médico miliciano Francisco Ribeiro de Almeida Saraiva, um dos pioneiros também, de Vila Nova da Rainha. Para guarnecer o Parque, era indicado o pessoal da Companhia de Aerosteiros, em serviço em Vila Nova da Rainha. Constava ele do primeiro-sargento António Pires Ferreira e dos segundos-sargentos Penedo, Chatinho, Araújo, Salgueiro e Pires, a maioria de sapadores mineiros; de 10 cabos, entre os quais, Albano Tavares que durante longos anos prestou serviço na Aviação Militar e 20 soldados, entre os quais, 2 condutores-auto.
Como engenheiro mecânico contratado, foi admitido o francês Léon Wilfart, que viera para Vila Nova da Rainha, para proceder à montagem dos aviões Farman-41 e Caudron G-3 e ali se radicou e se evidenciou ao apresentar um projecto de banco de ensaio para motores, que chegou a ser montado e portanto foi o primeiro que houve no país. De resto, a sua acção continuou a ser tão relevante, que levou o nosso governo a agraciá-lo com o grau de cavaleiro da Ordem Militar de Cristo, a 18 de Fevereiro de 1921.

O engenheiro francês Wilfart, junto ao banco de ensaio de que montou no PMA.
Por essa mesma ordem se designava qual o material que viria a servir, no Parque a erigir em Alverca. Dessa forma, as oficinas da Escola de Aeronáutica Militar seriam desmontadas e reconstruídas, com aproveitamento do material de construção. As máquinas e utensílios naquelas contidas, seguiriam também para Alverca e bem assim como o depósito de ferramentas, o material da garagem, um camião Kelly e tractor Jefferson, as arrecadações de material usado e casa do motor. Finalmente todos os caixotes de aviões e o hangar nº 1, tipo Bessoneau, de madeira e lona, desmontável.
Em resumo, a Escola de Vila Nova da Rainha, debaixo do ponto de vista oficinal, ficaria reduzida à expressão mais simples, o que não deve causar estranheza uma vez que se pensava na sua mudança urgente, para outro local de maior salubridade. Em 1919, pensou-se mesmo, como veio publicado nos jornais da época, na sua transferência para Alverca. Porém a Escola de Aeronáutica Militar, só em 1920, abandonaria Vila Nova da Rainha, mas para se fixar na Granja do Marquês.
Em princípios de Setembro, o Parque instala-se, ou melhor, acampa em Alverca, sendo a Ordem de Serviço nº18 ali já publicada.

 
Tenente médico Francisco Saraiva e Sargento-ajudante Albano Tavares
Começam então aparecendo os primeiros mecânicos, uns vindos de França, já especializados, como Manuel Gouveia (que se celebrizaria nas viagens aéreas a Macau e travessia nocturna do Atlântico Sul), Manuel António (componente da 1ª viagem aérea à Guiné), Gomes da Costa, Artur de Oliveira e outros que seriam graduados em sargentos, vindos de meios fabris e da Casa Pia.
Começa também o assalariamento de pessoal para as oficinas, e a 26 de Outubro de 1918 dá-se início à construção dos primeiros edifícios. Em princípios de 1919, João Meleças (que ficou com o seu nome ligado a uma avenida de Alverca), é promovido a capitão e Ribeiro de Almeida, no mês imediato, a major. À medida que os edifícios se vão aprontando, o trabalho de organização continuava metodicamente. Assim, a 11 de Março de 1919, seis meses depois da vinda para Alverca dos primeiros elementos, a parte fabril ficou dividida em 4 secções:
1ª Secção: Oficina de carpintaria civil, de electricidade, de pintura, de correeiro e depósito de madeiras.
2ª Secção: Oficina de motores, de serralharia mecânica, de forjas e de caldeireiros.
3ª Secção: Armazém de material de aviação, tendo adstrito o depósito de ferramentas e material de consumo.
4ª Secção: Coluna automóvel e oficina de reparação auto.
É de justiça também mencionar aqueles obreiros mais humildes, que contribuíram de forma exemplar, para que a inauguração do Parque se realizasse no prazo concebido pelos seus dirigentes e mentores. Trata-se do serviço de obras que foi dirigido pelo mestre Augusto Henriques, tendo como auxiliares preciosos, o mestre carpinteiro Joaquim dos Santos, o mestre pedreiro Pedro Anacleto e o capataz geral José dos Reis.
A história do Parque de Material Aeronáutico, e do seu orto, ficaria mutilada, sem a citação destes nomes, que comandaram a legião dos ignorados servidores que fizeram as paredes iniciais do grande edifício que hoje as O.G.M.A. orgulhosamente ostenta. Tudo se aprontava para a desejada inauguração oficial. Havia instalações, pessoal escolhido idóneo, mas era preciso começar o trabalho perfeitamente esquematizado. Estabeleceu-se assim o horário a 16 de Outubro de 1919.
Entrada: (manhã) 08:30 h. – Alta: 12:30 h.
Entrada: (tarde)    13:30 h. – Alta: 17:30 h.
Finalmente, no dia 26 de Outubro de 1919, ou seja um ano depois do lançamento do primeiro cabouco, era oficialmente inaugurado o Parque de Material Aeronáutico de Alverca.
(Texto e fotografias do livro de Edgar Cardoso "O Jubileu das Oficinas Gerais de Material Aeronáutico" de 1968)

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sexta-feira, março 16, 2018

A inauguração do PMA - 26 Outubro 1919

A propósito da inauguração do Parque de Material Aeronáutico, em 26 de Outubro de 1919, transcrevo integralmente o texto e desenhos publicados no jornal "A Capital", diário republicano da noite, na sua edição de 30 de Outubro de 1919.

Foto aérea do Parque de Material Aeronáutico (PMA), em Alverca, provavelmente após a inauguração em Outubro 1919. Podem-se ver várias construções em curso, não existindo ainda o barracão do Campo Internacional de Alverca (CIA) fora do perímetro do PMA. Só mais tarde seriam construídos o hangar de montagem, hangar de balão e instalado o portão das águias.
«inicio da transcrição»
A Inauguração do Parque de Material Aeronáutico em Alverca 

O nosso colaborador artístico Sanches de Castro enviou-nos a sua reportagem flagrante da abertura no domingo passado do novo Parque de Aeronáutica Militar em Alverca. Dessa reportagem que por ser excessiva e original em demasia, não publicamos toda - eram necessárias pelo menos 16 colunas - extraímos «croquis»  bem conhecidos no meio aeronáutico, e notas leves e bem humoradas do seu autor.
PRÓLOGO
- 10 da manhã: dia lindo e domingo. O automóvel «Roamer», posto à nossa disposição pela firma Mantero, Mendonça Ldª, esperava-nos à porta nobre do nosso jardim... da Estrela. Subimos. Amplamente recostados em comodíssimos estofos, quaes coxins Maple, somos transportados como que impelidos pela brisa, tal a deliciosa e embriagadora suavidade, com que nos sentimos levados através das ideaes estradas do nosso fértil Ribatejo.Temos ouvido, muita gente delas dizer mal. Não concordamos. Achamo-las esplendidamente conservadas. Durante esse relativamente longo trajecto, sentimo-nos tão pouco balançados, que nos vêmos obrigados a manter essa nossa firme opinião a despeito da voz corrente. A não ser que as molas do carro em que viajámos tenham tal «souplesse», e tão escolhida têmpera, que nos obriguem a incorrer nessa errada informação. Tudo pode ser «Honny soit qui mal y pense».
Parámos numa povoação que nos disseram ser a Póvoa de Santa Iria. Aproveitámos a «halte», para comprar um pataco de castanhas assadas, a uma gentil ribatejana que espiritualmente metia os dedos no nariz. Contou-nos alto, deu uma de brinde, e passando a explorar a galeria anexa, disse-nos adeus, não dizendo nada.
1ª - 2ª - 3ª - e em 100 metros estamos a 50 á hora. Passamos as montanhas russas de Alverca a 60 e em menos tempo que isto leva escrever, estamos às portas do Parque Militar de Aviação. 
CAPITULO I
Alverca-a-Deserta
Na nossa frente um aviso diz:

Em vista disso entrei. Era também o que estavam fazendo vários homens, mulheres, senhoras, meninos, militares com ou sem graduação.
A filarmónica de Alverca delicia-nos com um lindo «pas de quatre». Precede uma correnteza de petizes das escolas do sitio que a passo e a dois a dois, «pas de quatre», veem de mãos dadas e estandarte á frente tomar parte na festança. Detalhada está a comparsaria paisana, vamos agora ao scenario e adereços.
Casas feitas e outras por fazer, máquinas, motores, etc., etc., e sem duvida nenhuma, muito boa vontade de quem em tao pouco tempo conseguiu fazer uma obra tão grande e tão útil, debaixo de todos os pontos de vista.
Vamos para a frente meus amigos, temos bons operários, vamos a educa-los que depois poderemos fazer com eles, e com essa boa vontade tão cabalmente demonstrada, tudo o que é possível fazer-se, tudo o que os taes «de lá de fora» fazem, e que nós podemos tão bem ou melhor fazer.
Bravo. Bravíssimo. Bravissíssimo.
Estalam foguetes: pum...  pum... traz...  traz...  traz...São em honra do ministro que vae chegar, mas que também são em sua honra, amigo Ribeiro d'Almeida. Você fez obra - merece-os. 
CAPITULO II
Donde se prova que o ministro tem azas e ... avôa
Chega um Breguet 300 H.P. pela aterragem, bem escolhida. Pilota-o o capitão Maia, da Esquadrilha Republica.
Traz o ministro.

Chega outro Breguet 300 H.P. Bela aterragem, difícil. Pilota-o o capitão Brito Paes, da Esquadrilha Republica.

Traz o chefe da aeronáutica.

Logo começam as saudações e as apresentações, À frente o major Ribeiro d'Almeida...

Com o médico Saraiva para tirar fotografias, e um alferes, para..., cortar o vento.

Depois a esquadrilha do deposito (Vila Nova da Rainha) representada por Cifka Duarte e


Santos Leite.

...E vários outros aviadores. Cumprimentos. Forma-se um cortejo e começa a visita às instalações.
A entrada é vedada nas ditas, mas facilmente se consegue com a presentação dum bilhete de ex-passageiro do paquete Ambaca.
E assim vamos ás oficinas de serralharia, montagem, carpintaria, (com dez bancos) e o banco de ensaios (com um banco), e passamos á sala do copo d'agua onde não há banco nenhum.
Somos convidados (Armando Ferreira e Sanches de Castro agradecem) para um «lunch e peras» (mas onde não havia peras), primorosamente servido pela casa Rosa Araújo.
Todos os aviadores se agarram ao «volante» (volante é o «lunch» é claro) que vem a ser um catálogo de coisas boas sem ter fim, e que foi pena não termos podido trazer na algibeira, porque francamente, não íamos prevenidos para isso.
Em cima disto 7 brindes, Bucelas branco, Colares tinto, Porto, Champagne, caré e «triple-sec».
A seguir um aperto de mão no Ribeiro d'Almeida, ver desgrudar «decoller» os aviões, carregar no botão da «mise-en-marche», meter a 3ª, e sem mis mudar de velocidade, numa arrancada única, chegar a Lisboa fresquinho para ir aos touros.
«fim da transcrição»

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Raid Madrid - Alverca em 1919

Em 11 de Novembro 1919, após a inauguração do PMA e do Campo Internacional de Alverca, ocorrida em 26 de Outubro, este campo foi palco da primeira aterragem em Portugal de um avião vindo do estrangeiro, no caso concreto um Martinsyde F.4 Bruzzard, biplano monoposto de combate, um aparelho de demonstração com a matrícula G-EANM, pilotado pelo inglês Raynham. O avião tinha saído de Brooklands, UK, com destino a Espanha, a 6 de Outubro, tendo ficado cinco semanas em Cuatro Vientos, perto de Madrid, onde fez várias demonstrações para as entidades militares espanholas, antes de voar para Alverca.

Campo Internacional de Alverca, em frente do PMA
Sobre esta viagem transcrevo a descrição publicada no Jornal “Correo de la Mañana”:
«Às 11h30m de 11 de Novembro de 1919, levantou voo do Aeródromo de Cuatro Vientos, em Madrid, o intrépido aviador inglês Raynham, pilotando uma avião Martinsyde, tendo aterrado no campo do Parque de Material Aeronáutico, em Alverca, às 14h45m. Apesar do voo se ter efectuado com mau tempo, realizou-se em 3h05m. O piloto Rayhnam teve que lutar contra um vento de frente terrível, cuja força era aproximadamente de 46 kms/hora e algumas chuvas que o obrigaram a voar muito baixo. Este facto, unido à grande velocidade com que o aparelho voou – uma média de 190 kms/hora, deu à viagem foros de extraordinária e perigosa, segundo opinião dos técnicos.

Martinsyde F.4 com a matrícula G-EANM, no campo de Alverca
O aviador seguiu o curso do Manzanares, primeiro, e depois do Tejo, até Valência de Alcântara, seguindo mais tarde a linha férrea até Abrantes e novamente o curso do Tejo, até o Campo Internacional de Alverca. Devido à pequena altura a que o aparelho voou, a sua passagem pela fronteira em Marvão, deu origem a manifestações de entusiasmo, à passagem dos aviadores.
Quando o aparelho, o notável Martinsyde, voava sobre a serra de Guadarrama, que estava coberta de neve e oferecia um espectáculo admirável, duas enormes águias acompanharam a nave durante algum tempo. Apesar das condições difíceis em que se realizou o raid, o hábil piloto inglês, ao chegar ao Aeródromo de Alverca, quis dar uma prova eloquente de domínio técnico e realizou ante o assombro de um numeroso público, que esperava a chegada do aviador, uma série de voltas malabaristas, loops e outras piruetas acrobáticas, que culminaram numa grande ovação, após uma aterragem perfeita. As autoridades militares e oficiais da Aviação Portuguesa, dispensaram ao intrépido piloto uma recepção extremamente afectuosa. Um Breguet pilotado por oficiais portugueses aterrou pouco tempo depois, entregando ao piloto inglês, uma mensagem de saudação.»

Baptismo do Martinsyde G-EANM, como "Vasco da Gama", na Amadora.
Raynham partiu de seguida para o aeródromo da Amadora, tendo antes voado sobre Lisboa, deixando no nosso público a melhor das impressões.

Aeroplano Vasco da Gama sendo pilotado pelo tenente Pereira Gomes na Amadora.
No aeródromo da Amadora, Raynham foi recebido pelo Ministro da Guerra e dos Negócios de Inglaterra e de Espanha, tendo o Club Inglês oferecido um banquete em sua honra. A colónia inglesa em Lisboa ofereceu o avião Martinsyde ao Governo Português, que após ter sido baptizado “Vasco da Gama” por lady Drumond, esposa do Embaixador em Portugal, ficou integrado no G.E.A.R. da Amadora e depois transferido para Tancos.

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quinta-feira, março 15, 2018

Apresentação do Junkers G-24 em Alverca - 1925

No dia 16 de Novembro de 1925, pelas 14:15, aterrou na Pista Internacional de Alverca, o trimotor "Junkers" G-24, primeiro avião trimotor monoplano de transporte comercial, inteiramente metálico, na altura qualificado como avião gigante. A iniciativa deveu-se à Empresa Técnica Industrial, Limitada, representante da casa "Junkers", em Portugal.
Este avião, da companhia sueca AB Flygindustri, matrícula S-AAAY, veio em viagem de propaganda e preparação das carreiras aéreas Alverca-Sevilha e Alverca-Madrid, sendo pilotado por Fritz Horn (30) e Carlos Gunnar Lindner (25). Fritz Horn, escolhido pela casa "Junkers" para voos de responsabilidade, era um piloto e mecânico competentíssimo e já tinha realizado em Julho desse ano, a rota dos sete países: Suécia, Dinamarca, Alemanha, Suíça, Áustria, Hungria e Polonia em 4 dias, num avião idêntico.
O "Junkers" G-24 S-AAAY, construído em Limhamn (cn 905), passaria em 1926 para a Lufthansa como D-1596 "Faunus", e em 4 de Abril 1927 seria matriculado na UAE como M-AJAJ "Sevilla", iniciando a carreira Alverca-Sevilha, no dia 29 do mesmo mês, com o célebre piloto José Maria Ansaldo. Adquirido em 1935 pela Oleag foi matriculado OE-LAB "Faunus" e regressou à Lufthansa em 1938 como D-ALAB "Faunus", tendo sido acidentado e abatido em 1939.

Publicidade sobre a marcação de lugares no Junkers para uma volta sobre Lisboa.

Capa do Domingo Ilustrado sobre a vinda do avião Junkers G-24. A matricula do avião não confere, embora a AB Aerotransport tenha tido um S-AAAG Norrland, cn 838, nas suas carreiras internas.

Publicidade sobre as viagens de recreio sobre Lisboa no Junkers G-24

S-AAAY da AB Flygindustri foi matriculado em 1927 como M-AJAJ "Sevilla" na UAE
Transcrevo abaixo o que foi relatado nos jornais "Diário de Lisboa" e "O Século" de 16-11-1925:
A partida de Quatro Vientos
O avião tinha saído da pista de Quatro Vientos, em Madrid, às 9h37m, de 16 de Novembro de 1925, tendo como passageiros: o director da Aeronáutica Naval, comandante Aires de Sousa, o representante da Aviação Militar, major Cifka Duarte, presidente do Aero Clube de Portugal, engenheiro Gabriel Ramires dos Reis, diretor da Empresa Técnica Industrial, representante dos "Junkers", o snr Ferdinand Meuts, o Agente Geral das Colónias, Dr. Armando Zuzarte Cortesão e os jornalistas Alonso, o grande repórter fotográfico espanhol, Gustavo Franchell, sueco, e o nosso camarada Felix Correia como redator da agência Havas.
O avião voou sempre contra o vento, tendo apanhado durante grande parte do percurso chuva e nevoeiro. Pois apesar disso, a viagem foi deliciosa, visto que a estabilidade do aparelho é tão grande, que os passageiros chegam a ter a impressão de viajar no «Sud».

Cima: O avião aterrando no campo de Alverca. Baixo: Os passageiros e tripulantes.
A chegada a Portugal
Era meio dia quando o avião começou voando sobre terras de Portugal, seguindo, como já o vinha fazendo desde Toledo, a linha do Tejo. Foi, então, aberta uma garrafa de "Champagne" e bebeu-se por Portugal, pela nossa Aviação de terra e mar e pela imprensa. Perto de Santarém, o major Cifka Duarte tomou, por especial deferência dos pilotos, conta de um dos comandos, que largou pouco antes de se voar sobre Alverca, onde o avião passou ás 13h52m. Na pista viam-se muitas dezenas de pessoas aguardando o aparelho - e entre eles vários aviadores. O avião fez uma viragem a poucos metros de altura, sobre o campo e dirigiu-se a Lisboa. Sobre a cidade, onde chegou às 14h00 em ponto, fez o "Junkers" várias evoluções que despertaram entusiasmo em toda a população, sendo lançados pelos passageiros e tripulantes, milhares de exemplares do seguinte manifesto:
«À CIDADE DE LISBOA» - de bordo do avião "Junkers" - o iniciador das carreiras aéreas de Portugal - que acaba de percorrer 2800 quilómetros, sobre seis países diferentes, desde Malmoé (Suécia) até à capital portuguesa - todos nós estrangeiros e portugueses, passageiros e tripulantes, saudamos enternecidamente o povo de Lisboa. A vinda do "Junkers" a Portugal representa a realização duma grande aspiração que nada explica que não se tenha ainda efectivado. Coube à Empresa Técnica Industrial, Limitada, representante da casa "Junkers", a glória de tão útil iniciativa.
Portugal, que em aviões, segundo o testemunho de Sarmento Beires, está atrasado cinco anos, fica, desde hoje, por intermédio do "Junkers", em contacto com a última palavra da navegação aérea. Este avião - do qual estamos contemplando agora as maravilhas de Lisboa - é o primeiro avião comercial, o primeiro inteiramente metálico e o primeiro com três motores, que vem a Portugal. Para o povo de Lisboa e para a gloriosa Aviação portuguesa vão as mais sinceras saudações de todos nós. A bordo do avião "Junkers" - Novembro de 1925.»
Ao passar sobre o liceu Gil Vicente, o avião desceu a pouca altura e deixou cair na cerca daquele estabelecimento de ensino, uma pequena mala de lona, envolta num galhardete com as cores nacionais. A mala, tinha de um lado os seguintes dizeres: Correio Aéreo do Avião «Junkers Madrid-Lisboa» e do outro: «Pede-se o favor de entregar imediatamente no Palácio Presidencial» Os alunos do 3º ano do mesmo liceu, Mário Cambraia e Luís do Quintal Barbosa, por indicação do respectivo reitor, levaram-na ao palácio de Belém, onde foi entregue ao snr Jaime Atlas, secretário geral da presidência da Republica.

O avião virou, então, com rumo a Alverca, onde aterrou às 14h15m, sendo os que nele viajavam aclamados pela multidão. Na pista de Alverca estavam, entre outros, os srs comandantes Cerqueira da Aeronáutica Naval, capitão Beja do Aero Clube de Portugal, Carlos Bleck, cônsul da Suécia, capitão Luis de Almeida director do Parque de Material Aeronáutico, tenentes Penha Metelo, Felgueiras e Tedim, capitão Barra dos Aerosteiros, cônsul da Noruega, etc. Também ali esteve a família do comandante Aires de Sousa da Aeronáutica Naval.
No aparelho, donde foi atirada sobre a cidade uma mala de correio, com cartas do snr Melo Barreto para os srs presidente da Republica e do governo, foi colocada a bandeira portuguesa, tendo acorrido a Alverca, durante o resto da tarde, muitas centenas de pessoas, desejosas de admirar o avião gigante.(Crédito: DL e O Século 16-11-1925)
 
Vista do PMA e do Campo Internacional de Alverca, em 1924, mostrando um avião estacionado e o hangar metálico de apoio.
Sobre as viagens efectuadas nos dias seguintes, encontrei as seguintes referências:
19-11-1925 - No segundo dia de voos, o Junkers voou várias vezes sobre Lisboa, atraindo a atenção de toda a cidade pelas suas curiosas evoluções. A Alverca, campo onde o aparelho levanta e  aterra, foram muitos aviões e hidros que o acompanharam nalguns voos. Foram passageiros, entre outras entidades oficiais, o srs Ministros da Marinha e das Colónias, com os seus ajudantes, os chefes do gabinete dos srs Ministro do Comércio e da Guerra, e o capitão aviador Pinheiro Correia, como representante daqueles titulares, e os srs ministro da Espanha e adido militar espanhol e cônsul da Suécia.
23-11-1925 - Ao terceiro dia de voos faltou o benzol e devido ao atraso na sua entrega, o "Junkers" ficou parado em Alverca, durante alguns dias, tendo os  pilotos descansado e dado uma entrevista ao Diário de Lisboa.
25-11-1925 - No comboio das 11:45, seguiram para Alverca, numerosos jornalistas de todos os diários da capital, que voaram sucessivamente, em grupos de 10, no avião "Junkers", sobre Lisboa e arredores. Todos os jornalistas ficaram encantados com a estabilidade e segurança do poderoso aparelho - que tem ficado à chuva e ao vento na pista de Alverca, por não precisar de «hangar».
28-11-1925 - O mau estado da pista de Alverca impediu o "Junkers" de viajar para Sevilha, como estava anunciado, a fim de transportar da capital andaluza a Madrid, o general Primo de Rivera e os Duques da Vitoria. Devido ás abundantes chuvas do dia anterior, a pista de Alverca ficou completamente alagada, tendo as rodas do trem de aterragem ficado enterradas até metade, quando o piloto Horn tentou, embora sem passageiros, e ajudado por todo o pessoal do Parque de Alverca, fazer rolar o pesado "Junkers" na pista.
02 a 22-12-1925 - O "Junkers" fez vários voos sobre Lisboa, tendo transportando várias entidades oficiais, aviadores, gente do teatro e da imprensa. O Diário de Noticias sorteou dez viagens no "Junkers", que podiam ser substituídas por um prémio de 100 escudos.
22-12-1925 - « Às 10:55, levantou voo de Alverca, em direção à cidade do Porto, o avião "Junkers", pilotado pelo aviador Fritz Horn e com o major Cifka Duarte a um dos comandos. Além destes aviadores e de um mecânico, seguiram no aparelho: o capitão Jorge Castilho, os jornalistas do Porto Carlos Neves, do "Primeiro de Janeiro", Joaquim Salgado do "Comércio do Porto" e Juliano Ribeiro do "Jornal de Notícias", o snr Hermenegildo A. Soares, da casa Campos & Serra, que fretou o avião para esta viagem, e os nossos camaradas de Lisboa, Augusto Pinto, do "Diário de Noticias" e Félix Correia. O capitão Jorge Castilho levava consigo o sextante de Gago Coutinho, que pertence à Aviação Militar, tendo feito várias observações durante o percurso. Uma hora e 35m depois da largada, o "Junkers" chegava ao Porto, tendo feito vários voos sobre a capital do Norte, cujas ruas e praças estavam apinhadas de populares. Depois de lançar numerosos manifestos e jornais sobre o Porto, o avião regressou às 12:55 a Alverca, onde chegou às 14:45, fazendo o percurso com vento contrário. Apesar de chuva e forte ventania que o aparelho apanhou no Norte, a viagem, que durou 3h50m, foi deliciosa.»
O regresso a Espanha
29-12-1925 - O "Junkers" realizou o seu voo final entre Alverca e Sevilha, para entrega do avião, levando como tripulantes e passageiros os srs major Cifka Duarte, tenentes Jorge de Ávila e José Cabral, engº Gabriel Ramires dos Reis, da Empresa Técnica Industrial, Limitada, representante da casa do avião, o jornalista Félix Correia do "Diário de Lisboa". A aterragem fez-se na pista de Tablada, considerado o melhor aeródromo da Península Ibérica, onde vários aviadores espanhóis esperavam para dar as boas vindas. No dia 31-12-1925, foi efetuada a despedida dos aviadores de Tablado, que fizeram algumas acrobacias com um Breguet e um Avro sobre a comitiva e apresentação de cumprimentos ao cônsul de Portugal sr Jorge de Noronha e Oliveira. A viagem de Alverca a Sevilha, em avião, durou 2h45m, enquanto o regresso dos passageiros portugueses, através de comboio, camioneta, gasolina e vapor, demorou 23 horas.

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quarta-feira, março 14, 2018

Hangar de Balão - 1925

Com a vinda do Director do Parque de Material Aeronáutico, em 1918, para Alverca, deu-se por arrastamento a colocação da Companhia de Aerosteiros nesta localidade, vinda de Vila Nova da Rainha. Foi o seu pessoal que de início guarneceu o Parque, antes do assalariamento de civis e do contracto de mecânicos graduados. Esta companhia, pela reorganização de 10 de setembro de 1924, passou a denominar-se Companhia de Aerostação de Observação e dois anos mais tarde, em 21 de Agosto de 1926, foi transformada em Batalhão de Aerosteiros, com vários balões cativos zodiac e um esférico para voos livres.

Edifício do Comando e Messe do Batalhão de Aerosteiros no PMA.

Operações junto ao hangar com balão cativo tipo BD do Batalhão de Aerosteiros de Alverca

Exercícios no Batalhão de Aerosteiros em Alverca. (Foto Arquivo Torre do Tombo)

Vista do hangar de balão ao fundo e do hangar de aviões do aerodromo em 1928.
Na sequência desta reorganização, foi construído em 1925, o Hangar de Balão para a manutenção de balões de hidrogénio, suspensos, desenhado pelo gabinete de arquitectura da Aeroplanning Gmbh, com a colaboração do engenheiro Rolf Schmalor. No ano seguinte, em 1926, iniciar-se-ia a construção do Hangar de Montagem.

Hangar de balão com os rebanhos para conservação da pista de aviação

Vista interior do hangar de balão

Estrutura geodésica entrelaçada na construção do hangar de balão
Utilizando uma arquitectura geodésica, já desenvolvida e adaptada à construção de estruturas de fuselagem e asas cantilever pela casa Vickers, na construção dos aviões monomotores Welesley e bimotores Wellington, bem como na construção civil e naval, o hangar de balão das OGMA é o único exemplar, actualmente existente no mundo, utilizando este tipo de estrutura inovadora.
O hangar possui uma altura máxima de 13,10 metros, uma largura 14,65 metros e 40 metros de comprimento, sendo revestido com 22.800 telhas de fibrocimento. No interior existem dois pisos superiores de onde se acedia à tela dos balões. Toda a estrutura interna é composta por traves de madeira dispostas diagonalmente, lembrando o casco de um navio invertido, “ [...] era considerada modelar na época. A disposição de elementos diagonais evita o contravento, permitindo uma grande economia de espaço, tal como era necessário para o alojamento de balões.” (OGMA, Hangar de Balão, [programa do 80º aniversário], Alverca, OGMA, 1998).

A primeira estrutura geodésica, construída em 1922 em Jena, Alemanha, da Companhia Zeiss Optical.

Asa monolongarina «Dewoitine»
Construção geodésica aplicada à fuselagem e asas, iniciado pela Vickers
 
Fuselagem monocasco com revestimento resistente «Bleinheim»
A arquitectura da construção geodésica, contribuiu para a resolução de questões de ordem estrutural, particularmente no vencimento de grandes vãos, e determinou, nos anos 50, a concepção dos impressionantes Hangares de Manutenção de Aeronaves, organizados mediante um engenhoso sistema estrutural misto, que proporciona a abertura de vãos de 120m e 160m de largura, suspensos por consolas de 45m de profundidade, fixas por meio de uma rótula que se articula com uma estrutura entrelaçada e ancoradas ao solo através de tirantes na face oposta. (documento do IPPAR)

Rallye do Sporting de 1961, no Aeródromo de Alverca, vendo-se atrás o hangar de balão.(Crédito: Carlos Pinheiro)

O hangar de balão nas cheias de Novembro de 1967.
O Batalhão de Aerosteiros foi extinto na reorganização militar de 31 de Dezembro de 1937, tendo o Hangar de Balão cessado a sua função original. Desde essa data, foi este hangar utilizado, durante bastantes anos, como arrecadação de aviões e material diverso, incluindo documentação, a qual se terá perdido (destruída inadvertidamente confundida com lixo), durante os trabalhos de recuperação do hangar em 1993, aquando das comemorações dos 75º aniversário das OGMA.
Actualmente, o hangar de balão é um testemunho único do Património Industrial do país, e de Alverca em particular, sendo utilizado pela empresa como espaço de memórias, onde se encontram expostas fotografias e objetos intimamente relacionados com a história das OGMA, tendo sido realizadas exposições comemorativas por altura dos seus aniversários.

Hangar de balão e exposição do 90º aniversário das OGMA, realizada em Junho de 2008









É importante assinalar que, grande parte do acervo da história das OGMA, (aviões e réplicas construídos, uns e outros, na empresa) e documentação diversa: manuais de aeronaves, publicações técnicas, documentação interna, revistas, fotografias, entre outros, passaram a incorporar o Museu do Ar, criado em 1969, em instalações cedidas pelas OGMA.(OGMA, Museu Industrial da OGMA, folheto).
Funcionando o Hangar de Balão como Museu Industrial OGMA, espaço importante para o conhecimento da História de Alverca e do seu Património Industrial, na sequência do trabalho realizado pela Comissão de Conservação do Património Histórico-cultural das OGMA em 1993, o facto é que o acesso ao museu não é fácil, sendo aberto ao público apenas em momentos especiais, nas comemorações dos aniversários das OGMA e a visitas institucionais de órgãos ligados ao governo e escolas secundárias e universitárias. (Fragmentos de Alverca: História e Património de Anabela Ferreira, 2009)

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