sábado, dezembro 21, 2013

Hidroavião Argos em Alverca - 1927

Em 15 de Janeiro de 1927, o Parque de Material Aeronáutico de Alverca foi protagonista e palco do início da viagem à volta do mundo, projecto inicial de Sacadura Cabral, retomado em 1926 pelo major Sarmento de Beires, que viria a transformar-se na 1ª travessia nocturna do Atlântico Sul.
O avião escolhido foi o hidroavião Dornier Do J (Wal), metálico, com dois motores Lorraine-Dietrich de 450 cv, em cuja fábrica de Marina de Pisa, foi testado nos finais de 1926, por Sarmento de Beires e José Cabral, que o trouxeram em 11 Janeiro 1927 até Alverca, com escala em Barcelona, Los Alcazares e Málaga.


Ensaios do hidroavião Argus em Marina di Pisa.
Sobre a chegada a Alverca, a 15 de Janeiro de 1927, cito Sarmento de Beires: «Junto à Serra da Arrábida, porém, vivemos minutos apavorantes. Envoltos na escuridão, duma humidade que era chuva, névoa, nuvens, olhos quási vendados, mãos crispadas nos volantes, José Cabral e eu sentíamos o aparelho rebelar-se, recusar-se a obedecer aos comandos. Ora se inclinava, como a querer deslisar na asa, ora caía abandonado, como se lhe faltasse o apoio, ora cabrava num arriscado angulo de subida, ora picava, ameaçando entrar connosco no mar encapelado. Uma mala de porão que trazíamos a bordo, – cerca de cem quilos – saltava de quando em quando no compartimento da ré. O nosso horizonte reduzia-se a poucas dezenas de metros; na baía de Cesimbra, chegámos a navegar para nordeste! O Cabo Espichel, foi transposto a custo; o vento impelia-nos sobre a falésia, e alcandorado no alto, o farol conservou-se oculto entre as nuvens baixas. Depois, houve uma curta acalmia da névoa. A Torre do Bugio surgiu, dando-nos alma nova. Era o Tejo, era Lisboa, era o nosso porto de destino, Alverca do Ribatejo. Pelas 15 horas e 45 minutos, o ARGOS amarava em frente à pista internacional, e vinha encalhar suavemente no lodo da margem»
Chegada do hidroavião Argus a Alverca.
No dia anterior, o tempo tinha-se apresentado carrancudo, com vários períodos de chuva, pelo que se supunha que o Argus não se apresentaria em Alverca e disso estavam convencidos os aviadores e oficiais do PMA, incluindo o major Cunha de Almeida, que se tinha retirado às 11 horas.
Logo que foi sabida a notícia da largada de Málaga começaram os preparativos em Alverca, sob uma chuva impertinente, que tornava lamacento e intransitável, o sítio que orla a margem do Tejo. Um grupo de operários montou a zorra e respectiva linha “Decauville”, e ainda uma pequena ponte de tábuas, para os aviadores poderem chegar a terra firme. Esperou-se longo tempo. O vento e a chuva tornavam insuportável a espera junto à margem do rio, razão porque os operários fizeram uma barraca de abrigo e ali se aguardaram a chegada da aeronave. Passaram-se longas horas e cada vez a atmosfera se tornava mais cinzenta e mais se adensava a neblina para os lados do sul. Andavam os homens na manobra da zorra, quando um deles descobriu ao fundo do horizonte um ponto negro a mover-se. Fez-se algarada e todos exclamaram: É ele! Aí vem ele! Era realmente o Argos que voava, a pouca altura, ao logo da margem, rompendo o nevoeiro, numa marcha cadenciada e firme. Descreveu uma grande curva e foi amarar lá ao fundo, defronte, quási, da sede da Esquadrilha de Caça. A amaragem foi tudo quanto há de mais elegante. O Argus poisou no rio como se fora uma gaivota. Depois rompeu a água e veio deslizando até à margem, perto daquele lamaçal intransitável.

Juntaram-se os oficiais do Parque, os mecânicos, o pessoal operário e muitas pessoas que a Alverca acorreram para verem poisar o Argos. Afinal, não veio para terra, como se supunha, por falta dos eixos e das rodas de transporte, cuja entrega ainda não tinha sido feita. Ficou amarrado e foi logo disposto de maneira a garantirem-lhe toda a segurança. Da carlinga saltaram os quatro aviadores, mas não vieram para terra enquanto não cobriram as hélices e os motores. Ao encontro dos aviadores foram o director interino do Parque Capitão Eduardo Gonçalves, major Portugal, capitães Amado Cunha, Sousa Lobo e Quaresma, tenente Remexido e outros oficiais. Houve abraços efusivos, saudações e, logo que o tenente-coronel Sarmento de Beires verificou a boa situação do aparelho, veio para terra com os seus companheiros, comandante José Cabral, capitão Castilho e alferes Gouveia. Os aviadores descansaram uns momentos na residência do comandante, tendo seguido para Lisboa no comboio das 5h25m da tarde. Na estação do Rossio, eram aguardados pelos oficiais da Inspecção de Aeronáutica, pelo pai do Comandante José Cabral e o secretário do Aero Club de Portugal.

O Argus já convertido em Argos, para respeitar a ortografia grega da palavra.
Na noite de 15 para 16, o temporal que assolou Lisboa e arredores arrancou o Argos do seu ancoradouro, levando-o até à margem esquerda do Tejo, onde chocou com uma elevação de terreno, avariando gravemente a asa direita, os lemes de profundidade e a coque. O Argos ficou assim inibido de poder partir no dia 13 de Fevereiro, data idealizada para a largada.
O major Luís Almeida e o capitão Eduardo Gonçalves, solidarizando-se com a tripulação, tomaram as disposições necessárias para que o aparelho fosse reparado no Parque de Material Aeronáutico, tendo o engenheiro Léon Wilfart, seguido para Itália em busca do material indispensável para a reparação do Argos, que continuou encalhado na margem até ao dia 22, à espera dos eixos e das rodas de transporte que haviam de permitir conduzi-lo ao hangar.
Citando Sarmento de Beires: «O que foram esses dias de trabalho nas oficinas de Alverca, - a condução do aparelho através da pista lamacenta – a reparação da asa, a substituição dos motores, - daria longas páginas de ansiedade, de enervamento, de desespero. O esforço realizado pelo pessoal fabril do modelar estabelecimento aeronáutico, constitui uma das mais belas demonstrações das qualidades do operário português. Não citarei nomes, porque a citar alguns, teria de citá-los todos. Desse período em que, com a alma dilacerada perante o decorrer do tempo, seguíamos passo a passo a reparação, ficou nos nossos corações uma imensa gratidão, um sentimento de infinita admiração por aqueles que, - desde o major Luís Almeida, ao mais humilde ajudante de mecânico, - trabalharam no Argos, fazendo serões, levando a tenacidade e a persistência tão longe, que pode afirmar-se não ter havido solução de continuidade nos trabalhos.»


Baptismo do hidroavião Argos, pelo bispo de Trajanopolis. Atrás do prelado o aviador Sarmento de Beires.

A sobrinha de Sarmento de Beires quebrando a garrafa de champanhe
Devido à impossibilidade do comandante José Cabral fazer parte da equipa, por ter sido nomeado para o comando do Centro Marítimo de Macau, foi convidado o capitão Dovalle Portugal. Com a equipa completa, realizou-se no dia 20 de Fevereiro o baptismo do Argos, conservando-se a ortografia grega da palavra, presidido por um prelado da Sé, tendo a sobrinha de Sarmento de Beires quebrado a garrafa de champanhe. Argos é o nome da nau em que os argonautas foram da Argólida à Cólquida em busca do Tosão de Oiro.
Nesse dia, a pista estava pejada de aviões, chegados de Tancos, Sintra e Amadora, tripulados pelos seus camaradas, que lhes vinham trazer um abraço de despedida e os desejos de boa viagem, num dia de sol, em que as salinas, então existentes na orla ocidental, rebrilhavam com fulgor diamantino e os campos circundantes florejavam garridos, anunciando a Primavera.


 
 
Ensaios do Argos no rio Tejo

A tripulação que iria fazer a viagem no Argos

Hidroavião Argos testando a vela, em caso de emergência no mar.
O Argos e a lancha "AVIADORA" do PMA.
No dia 21 de Fevereiro, o Argos foi lançado à água e iniciaram-se os ensaios dos motores, tendo Sarmento de Beires dado uma entrevista nesse dia, ao Diário de Lisboa. A largada foi marcada para dia 24 de Fevereiro, mas devido ao mau tempo foi sendo adiada, com os tripulantes a pernoitar na vila de Alverca.
No dia 1 de Março, pela manhã que limpara, com vento moderado de noroeste, o Argos foi lançado ao Tejo. Pelas 11 horas, com sete pessoas a bordo, o Argos descolou para a experiência final, sendo decidido substituir o par de hélices de duas pás, pelas hélices Dornier de quatro pás, usadas na viagem de Itália para Portugal, devido à forte vibração no castelo-motor que as primeiras pareciam provocar, e às 14 horas iniciou-se o pleno de gasolina.



Tendo o tempo piorado, com chuva e vento de sul, só foi possível a largada no dia seguinte, apesar do tempo ainda se mostrar incerto. Sobre a partida de Alverca, cito Sarmento de Beires: «Amado da Cunha, - oficial competente e carácter de nobreza excepcional, - auxilia-nos nos últimos instantes de azáfama. A notícia correu pelas oficinas, e como já é meio-dia e a sirene soa, os operários largam o trabalho e vão-se aproximando da margem do Tejo, que o sol anémico tinge, de quando em quando, velado por nuvens que passam. Pelas 13 horas, num pequeno barquito que ajouja sob o nosso peso, seguimos enfim para bordo, depois de satisfazer a exigência de alguns fotógrafos que assestam as suas objetivas sobre nós. José Cabral, num Hanriot, veio também despedir-se, disposto a acompanhar-nos até fora da barra. Mas o motor do seu avião funciona mal, estaca, e o aparelho volta a encalhar na margem, Cabral desiste. A bordo, verificamos que nos não falta nada. Bagagem, cartas, tabelas, aparelhos de navegação, livro de recados, farnel, água, caixa com mantimentos de reserva, galhardetes, máquina fotográfica, chapas, material de reserva e ferramenta, - tudo se encontra no aparelho.»

Multidão assistindo à partida do Argos no Tejo, no campo do PMA em Alverca.
«Castilho e Portugal, sobem à coque, Gouveia ao castelo-motor, instalo-me no meu lugar, atento às manettes, - e iniciámos a faina de pôr em marcha o motor da ré. São 13 horas. Após algumas voltas da hélice para compressão da mistura – exercício ginástico extremamente fatigante que Portugal e Castilho executam com energia, - ouve-se o ruido da injecção de acetilene nos cilindros, e colocada a manivela do magneto de partida, a primeira tentativa falha.»

O Argos já no ar, a caminho de Casablanca.
«Após a mudança de posição, com duas voltas da hélice, repetem-se as mesmas operações, e o motor parte. Seis homens que aguentavam um dos cabos de amarração do aparelho, deixam-no escapar, forçando-nos a soltar o outro cabo atracado em terra a uma estaca firma, para evitar que o aparelho descrevendo um semicírculo, venha chocar com a margem. E soltamo-nos do lodo, sob a impulsão da hélice que gira ao rallenti. Há uns vagos «vivas!» que se perdem, afogados no ruído do motor.
O Argos desliza ao acaso sobre as águas, enquanto se procede à mise-em-marche do motor de vante, que começa a funcionar às 13 horas e 11 minutos. Tomamos posição para partir, abro as manettes, roncam os motores a 1950 rotações por minuto, o aparelho sobre para o redente, e galgando 600 metros, descola sem dificuldade, face a noroeste. Castilho inscreve no diário de bordo a hora da largada: 13 horas 21 min (T.M.G.)»
              ROTEIRO DA VIAGEM APÓS A DESCOLAGEM DE ALVERCA
02-03-1927
Alverca – Casablanca     650 kms   3h43m
04-03-1927 Casablanca – Vila Cisneros   1420 kms   7h48m
06-03-1927 Vila Cisneros – Bolama   1490 kms   8h26m
11-03-1927 Bolama – Sogá (1)     150 kms   1h05m
17-03-1927  Sogá – Fernando de Noronha   2595 kms  18h12m
18-03-1927 Fernando de Noronha - Natal     390 kms   2h42m
20-03-1927 Natal - Recife     280 kms   1h50m
07-04-1927 Recife - Baía     700 kms   5h10m
10-04-1927 Baía – Rio de Janeiro   1490 kms   9h17m
01-06-1927 Rio de Janeiro – Guianas (2)      

O Argos no hangar da Ponta do Galeão

O Argos amarado em frente ao Recife

O Argos amarado na Baia de Guanabara
(1) Dia 11 de Março, depois de cinco tentativas, com várias reduções do peso, o Argos descola mas tem de amarar em Sogá, pequena ilha do arquipélago Bijagós, situado a 105 kms de Bolama, devido ao excessivo consumo de gasolina não garantir o indispensável raio de acção para alcançar o Brasil. O Argos voou mais 10 kms para atingir a ilha de Bubaque e aí, ponderados todos os aspectos do caso, verificaram, consternados, que o projecto de volta ao mundo, estava definitivamente prejudicado, melhor dizendo, irremediavelmente posto de lado, pois com o mar e ventos da região, o aparelho não mantinha as mesmas características que mostrara à saída de Lisboa.
Preocupado com o facto, Sarmento Beires telegrafou para Lisboa, informando que o projecto da volta ao mundo podia estar comprometido, e solicitava autorização para, mesmo assim, continuar a viagem até ao Brasil, sem a participação de Duvalle Portugal, que num rasgo de compreensão, teve a nobilíssima atitude de desistir de acompanhar os seus camaradas, para não comprometer, com o seu peso, o prosseguimento da viagem. A autorização chegou às 14h00 de 16 de Março, e o Argos largou às 18h08m, com destino ao Brasil, tendo amarado em Fernando de Noronha, a 400 kms da costa do Brasil, às 12h20m do dia seguinte. Foi um percurso de 2595 km, realizado em 18h11m, tendo sido a primeira vez, que avião passou uma noite inteira voando sobre o mar, sem ter para se orientar outro recurso além dos processos astronómicos, que se mostrou serem absolutamente praticáveis e dignos de confiança. Dia 18 de Março deixaram Fernando de Noronha rumo a Natal, onde foram calorosamente recebidos.

Uma multidão espera o Argos no Rio de Janeiro

O Argos fundeado em Belém do Pará

O Argos fundeado em Potengy
(2) Seguidamente fizeram escalas em Recife, onde se danificou uma hélice, e em Baía, tendo chegado ao Rio em 10 de Abril, onde foram recebidos por uma enorme multidão. No Rio de Janeiro, receberam um telegrama do governo para regressarem imediatamente, via Cabo Verde e Madeira. Por motivos de meteorologia, decidiram regressar via América do Norte, Terra Nova e Açores, tendo partido a 1 de Junho 1927.

Amararam em S. Jorge dos Ilhéus e no dia seguinte em Natal, onde ficaram até 4 de Junho. Seguiram para Fortaleza e Belém de Pará e no dia 5 de Junho descolaram para as Guianas. Ao passarem o cabo Norte, uma janela de inspeção da asa esquerda abriu-se, provocando um rasgão de grandes dimensões na tela da asa e depois a portinhola soltou-se ferindo a hélice, obrigando o Argos a amarar por razões de segurança. Apesar de reparada a tela da asa, o estado do mar impedia a descolagem, tendo uma vaga grande provocado um grande rombo no flutuador direito, inutilizando definitivamente o Argos. Às 19h00, os aviadores foram recolhidos por uma embarcação de pescadores, que os deixou na pequena aldeia de Montenegro, no norte do Brasil.

O Argos no momento em que, após 6 horas de abandono sobre as ondas, um veleiro salvador aparece no horizonte.

No dia 27 de Junho, Sarmento Beires, Jorge Castilho e Manuel Gouveia chegaram a Lisboa, a bordo do navio Hildbrand, numa altura em que se vivia o fim dos tempos turbulentos da Primeira Republica, comemorando-se o 1º aniversário da revolução do 28 de Maio. Talvez por isso tenha sido quase ignorado um dos voos mais significativos da história da aviação.

Placa comemorativa junto ao Museu do Ar em Alverca.

Modelo do Argos, no Museu do Ar em Alverca

Motor Loraine-Dietrich 14G de 450 HP do Argos, no Museu do Ar em Alverca

Diagrama do Dornier J Wal 
Dornier J Wal "Plus Ultra", do raid Palo-Buenos Aires, no Museu de Luján, Argentina.

Diagrama do Dornier J Wal "Plus Ultra

 Créditos:
- "Asas que naufragam" de Sarmentos de Beires
- "História da Força Aérea Portuguesa" Vol II - FAP
- "Viagens Aeronáuticas dos Portugueses"- Museu do Ar
-  Jornais e revistas da época

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1 Comments:

Blogger dianamodaintima said...

boa a história.
Gostaria que autorizasse a matéria na publicação do meu trabalho que fala da canoa vigilenga "Tira-Teima" e dos pescadores que salvaram a tripulação do "ARGOS" na ilha de Maracá no estado do Pará - Brasil.

11:25 da manhã  

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