quinta-feira, maio 16, 2013

A inauguração do PMA - 26 Outubro 1919

A propósito da inauguração do Parque de Material Aeronáutico, em 26 de Outubro de 1919, transcrevo integralmente o texto e desenhos publicados no jornal "A Capital", diário republicano da noite, na sua edição de 30 de Outubro de 1919.

Foto aérea do Parque de Material Aeronáutico (PMA), em Alverca, provavelmente após a inauguração em Outubro 1919. Podem-se ver várias construções em curso, não existindo ainda o barracão do Campo Internacional de Alverca (CIA) fora do perímetro do PMA. Só mais tarde seriam construídos o hangar de montagem, hangar de balão e instalado o portão das águias.
«inicio da transcrição»
A Inauguração do Parque de Material Aeronáutico em Alverca 

O nosso colaborador artístico Sanches de Castro enviou-nos a sua reportagem flagrante da abertura no domingo passado do novo Parque de Aeronáutica Militar em Alverca. Dessa reportagem que por ser excessiva e original em demasia, não publicamos toda - eram necessárias pelo menos 16 colunas - extraímos «croquis»  bem conhecidos no meio aeronáutico, e notas leves e bem humoradas do seu autor.
 
PRÓLOGO
- 10 da manhã: dia lindo e domingo. O automóvel «Roamer», posto à nossa disposição pela firma Mantero, Mendonça Ldª, esperava-nos à porta nobre do nosso jardim... da Estrela. Subimos. Amplamente recostados em comodíssimos estofos, quaes coxins Maple, somos transportados como que impelidos pela brisa, tal a deliciosa e embriagadora suavidade, com que nos sentimos levados através das ideaes estradas do nosso fértil Ribatejo.Temos ouvido, muita gente delas dizer mal. Não concordamos. Achamo-las esplendidamente conservadas. Durante esse relativamente longo trajecto, sentimo-nos tão pouco balançados, que nos vêmos obrigados a manter essa nossa firme opinião a despeito da voz corrente. A não ser que as molas do carro em que viajámos tenham tal «souplesse», e tão escolhida têmpera, que nos obriguem a incorrer nessa errada informação. Tudo pode ser «Honny soit qui mal y pense».
Parámos numa povoação que nos disseram ser a Póvoa de Santa Iria. Aproveitámos a «halte», para comprar um pataco de castanhas assadas, a uma gentil ribatejana que espiritualmente metia os dedos no nariz. Contou-nos alto, deu uma de brinde, e passando a explorar a galeria anexa, disse-nos adeus, não dizendo nada.
1ª - 2ª - 3ª - e em 100 metros estamos a 50 á hora. Passamos as montanhas russas de Alverca a 60 e em menos tempo que isto leva escrever, estamos às portas do Parque Militar de Aviação. 
CAPITULO I
Alverca-a-Deserta
Na nossa frente um aviso diz:

Em vista disso entrei. Era também o que estavam fazendo vários homens, mulheres, senhoras, meninos, militares com ou sem graduação.
A filarmónica de Alverca delicia-nos com um lindo «pas de quatre». Precede uma correnteza de petizes das escolas do sitio que a passo e a dois a dois, «pas de quatre», veem de mãos dadas e estandarte á frente tomar parte na festança. Detalhada está a comparsaria paisana, vamos agora ao scenario e adereços.
Casas feitas e outras por fazer, máquinas, motores, etc., etc., e sem duvida nenhuma, muito boa vontade de quem em tao pouco tempo conseguiu fazer uma obra tão grande e tão útil, debaixo de todos os pontos de vista.
Vamos para a frente meus amigos, temos bons operários, vamos a educa-los que depois poderemos fazer com eles, e com essa boa vontade tão cabalmente demonstrada, tudo o que é possível fazer-se, tudo o que os taes «de lá de fora» fazem, e que nós podemos tão bem ou melhor fazer.
Bravo. Bravíssimo. Bravissíssimo.
Estalam foguetes: pum...  pum... traz...  traz...  traz...São em honra do ministro que vae chegar, mas que também são em sua honra, amigo Ribeiro d'Almeida. Você fez obra - merece-os. 
CAPITULO II
Donde se prova que o ministro tem azas e ... avôa
Chega um Breguet 300 H.P. pela aterragem, bem escolhida. Pilota-o o capitão Maia, da Esquadrilha Republica.
Traz o ministro.

Chega outro Breguet 300 H.P. Bela aterragem, difícil. Pilota-o o capitão Brito Paes, da Esquadrilha Republica.

Traz o chefe da aeronáutica.

Logo começam as saudações e as apresentações, À frente o major Ribeiro d'Almeida...

Com o médico Saraiva para tirar fotografias, e um alferes, para..., cortar o vento.

Depois a esquadrilha do deposito (Vila Nova da Rainha) representada por Cifka Duarte e


Santos Leite.

...E vários outros aviadores. Cumprimentos. Forma-se um cortejo e começa a visita às instalações.
A entrada é vedada nas ditas, mas facilmente se consegue com a presentação dum bilhete de ex-passageiro do paquete Ambaca.
E assim vamos ás oficinas de serralharia, montagem, carpintaria, (com dez bancos) e o banco de ensaios (com um banco), e passamos á sala do copo d'agua onde não há banco nenhum.
Somos convidados (Armando Ferreira e Sanches de Castro agradecem) para um «lunch e peras» (mas onde não havia peras), primorosamente servido pela casa Rosa Araújo.
Todos os aviadores se agarram ao «volante» (volante é o «lunch» é claro) que vem a ser um catálogo de coisas boas sem ter fim, e que foi pena não termos podido trazer na algibeira, porque francamente, não íamos prevenidos para isso.
Em cima disto 7 brindes, Bucelas branco, Colares tinto, Porto, Champagne, caré e «triple-sec».
A seguir um aperto de mão no Ribeiro d'Almeida, ver desgrudar «decoller» os aviões, carregar no botão da «mise-en-marche», meter a 3ª, e sem mis mudar de velocidade, numa arrancada única, chegar a Lisboa fresquinho para ir aos touros.
«fim da transcrição»

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